5/25/2014

Carta ao Amado.

Sabe amado,estou ficando velha e as respostas começam a chegar.
O entusiasmo das perguntas se foi e eu começo a vislumbrar a minha sobriedade.
A chatice que vem com os anos.
A precaução de não errar anda de mãos dadas com a culpa por não ter errado mais,ainda quando se era permitido errar.
Que me dera se hoje pudesse ter o meu grande amor.
Quem dera eu ter sabido escolher melhor a época do semeio e da colheita, quem dera eu ter conseguido esperar.
Olha querido, que já não sou tão nova e já nem tão mais bonita, agora espero pacientemente o tempo passar por mim. Ainda ontem notei que já possuo alguns fios de cabelo branco...você iria rir do meu infortúnio e dizer que me alertou quanto ao uso de colorações demais nos cabelos. Quase posso te ouvir gargalhar.

Meu amado, não tenho eu mais mazelas a chorar, nem defuntos para enterrar, nem assuntos inacabados ao passo que hoje me tornei mulher livre e por esse mesmo motivo é que lhe escrevo.

A bem da verdade é que me fiz melhor para você e entendo que não fui o bastante.

Mudei. Planos,endereço,carreira, vida...
Vivi do nosso amor eterno e ideal. Morri por ele também, e como a Fênix voltava a morrer e renascer cada ida e volta tua. Até não sobrar mais cinzas para me refazer.
Me juntei então de ódio. Me armei...então não pude mais viver.

Os anos que se passaram entre nós foram gentis e lentos. E a cada ano sem ti aprendia a conviver mais e mais comigo, o que como você sabe,não é fácil.

Perdi,amadureci e aprendi a jogar com as peças que a vida havia me dado.
O marido que dorme ao lado, não o amo,mas é um bom marido e isso deve ser suficiente para se passar o fim dos dias. É verdade que a cama fica imensa, com o abismo de nossa relação conjugal, mas ele também não parece ligar.

Ando por bairros nobres e frequento bons lugares ,mas sempre pensando se de repente um boteco qualquer não me serviria de consolo.

Te escrevo pois sinto sua falta apesar da sua eterna ausência. Escrevo-te para dizer que o amo e os anos muitos não tiraram o que não me concederam.
Te escrevo e só,sem esperar resposta, sem esperanças.

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